Arquitectura

 

Por Paulo Martins Barata

 

Homens viajados e cultos, os irmãos Lacerda quiseram extemporaneamente criar, com recursos e mínimos e indispensáveis, um museu local de grande qualidade; um núcleo suficientemente importante para tornar o Caramulo um destino cultural no mapa Português. Como bons curadores sabiam que, independentemente da hábil gestão política de doações, a materialização física do Museu num objecto arquitectónico capaz de acolher com dignidade as colecções era um passo difícil mas determinante.

 

 

A escolha recaiu sobre Alberto Cruz, um arquitecto que apesar da historiografia e crítica do seu tempo não lhe reconhecer rasgos de modernidade, era ainda de uma geração capaz de desenhar e conceber a arquitectura com o sentido de monumentalidade necessário à obra pública. Alberto Cruz, ex-funcionário da Direcção Geral dos Monumentos Nacionais, era também um arquitecto que, pela natureza das suas relações sociais, se habituara a construir com grande qualidade e para uma clientela predominantemente opulenta e conservadora. A esta o arquitecto respondia com um tipo de sensibilidade tectónica semelhante à dos seus contemporâneos italianos Piacentini, Muzio e Gardella. Porém, o estilo manifestamente classisista de Alberto Cruz não advêm, ao contrário do que se possa supor, do desconhecimento das novas concepções modernistas de que era contemporâneo, já que Cruz teria em 1957 feito uma prolongada viagem de estudo aos museus norte-americanos e brasileiros a convite do Ministério das Obras Públicas, para “instruir e documentar o futuro Museu de Etnologia da Cidade Universitária de Lisboa”, projecto que pela mesma altura o arquitecto teria sido incumbido.

 

Não sendo certo que os irmãos Lacerda tivessem o distanciamento histórico-crítico necessário para compreender o problema da tipologia do “museu” enquanto edifício de representação, é possível que a sua rara sensibilidade lhes inspirasse a escolha de um arquitecto que conhecesse ainda as regras de estilo da composição clássica; num fundo, um arquitecto que conseguisse produzir um museu no sentido canónico. Assim nasceu o edifício do Museu do Caramulo, que no seu quase ingénuo formalismo clássico informa melhor que qualquer pretensa estrutura modernista, o ethos deste equipamento cívico. Assim, o classissante e esbelto pórtico anuncia a entrada ao visitante recém chegado ao magnífico planalto onde se encontra implantado o museu.

 

À priori, uma particularidade que terá certamente condicionado a implantação e a forma do edifício terá sido a reconstrução e reconstituição de um claustro oitocentista proveniente do Convento Franciscano da Fraga, em Sátão, que em 1954 Abel Lacerda adquiriu e salvou da destruição eminente. O claustro foi então transportado para o Caramulo peça por peça e ai remontado e restaurado com o necessário rigor e respeito pelos aparelhos de pedra, travejamentos e telhas; estas últimas nalguns casos negociadas com as gentes da serra, com telhas novas, em troca por velhas telhas rústicas.

 

A partir desta preexistência, ainda que histórica e formalmente transladada para o Caramulo, Alberto Cruz entendeu usar o claustro à semelhança do impluvium das casas romanas de Pompeia (um pátio nuclear a céu aberto que recolhia a água das chuvas), e construir todo o sistema de salas de exposição em seu torno, criando um canónico quadrado com 55 metros de cada lado, do qual apenas o anteriormente referido pórtico de entrada sobressai.

 
 

 

A aparente clareza desta planta corresponde em grande parte à própria simplicidade do programa do museu. No piso térreo, e com acesso a partir do vestíbulo, encontram-se localizados, os serviços administrativos, a cafetaria, a sala de exposições temporárias e a biblioteca, esta última com um pequeno de palco para conferências e eventos públicos. No lado oposto ao vestíbulo, encontram-se as zonas de restauro, arrecadação e oficinas; esta última com um discreto cais de descarga para o exterior.

 

No piso superior, a simetria da planta é ainda mais evidente e exaustiva. A partir da escadaria de lanços opostos, o visitante é convidado a percorrer o sistema sequencial em U de salas que sucessivamente se desenvolvem em torno do claustro. Dali, e sob o efeito estabilizador produzido pela retícula luminosa do sistema de clarabóias, obtêm-se uma sugestão de perspectiva barroca, onde a sucessão de pórticos das galerias remete, independentemente da dimensão, para a tradição expositiva dos antigos museus-palácio como o Louvre, o Pitti, ou o Escorial.

 

Com uma certa ingenuidade, os alçados do edifício combinam um aparelho rústico de xisto numa superfície continua desde os cunhais ao embasamento; com cantaria de lioz na cimalha, pilares, vergas e umbrais dos vãos exteriores; e com amplos panos de alvenaria (estes últimos correspondendo principalmente ao piso superior que por razões expositivas quase não tem fenestração).

 

Para quem se interesse pelo evoluir da prática profissional da arquitectura e da construção, através da análise da documentação existente sobre este edifício, é certamente comovente ver como o simples caderno de encargos e os poucos desenhos de execução permitiram com qualidade e rigor erigir um edifício para o qual seriam hoje necessárias minuciosas descrições contratuais, uma parafernália de desenhos e condições técnicas, com a certeza que chegaríamos ao fim com um edifício sobre certos aspectos mais pobre. Esse incorruptível elo de confiança entre os patronos, o arquitecto e o mestre construtor, hoje impossível de reeditar, demonstra bem como o nosso tempo mudou as circunstâncias de uma prática profissional e de uma forma de fazer.

 

Assim, e num tempo como o nosso, de confusa resposta às necessidades e aspirações do Homem, é com interesse renovado que revisitamos a história de um edifício que com tanto de simplicidade como de engenho soube servir os propósitos da instituição que o criou.

 

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